Engraçado como as pessoas tratam o assunto “Inteligência” de maneira diferente. Antes de me mudar para São Paulo eu andava com um grupo de amigos onde sempre me senti o mais incapacitado intelectualmente — e, levando em consideração a perspectiva do grupo pra medir isso, eu era.

Meus amigos passaram entre os primeiros lugares no vestibular de Medicina e Direito. Alguns costumavam ler livros bem hardcore e eu só jogava videogame, ia pra festas, enchia a cara e etc. Matemática? Eu nem sabia direito o assunto. Nem me pergunte qual a fórmula de Bhaskara que eu não sei. Meus amigos sabem decorado todas as fórmulas e sabem até hoje quando aplicar elas. Eu só sei somar, subtrair, multiplicar e dividir. Se os números forem grandes eu ainda preciso usar calculadora!

Eu era considerado o mais burro por causa da métrica que o grupo usava para “medir a inteligência”. Felizmente hoje eu sei que a métrica utilizada por eles é errada. Com o tempo eu comecei a ignorar completamente essa medida e segui minha vida. Durante a faculdade trabalhei com pesquisas cientificas na área de Informática na Educação e publiquei 6 artigos em congressos internacionais, 1 resumo e 1 capitulo de livro que também foi publicado internacionalmente. Fora isso ainda consegui uma bolsa de iniciação científica e tive o meu projeto como finalista do Prêmio Guia do Estudante — Destaques do Ano 2014. Foi quando pensei “pera ai! Talvez eu não seja tão burro assim”.

Nesse mesmo período me graduei e me mudei pra São Paulo. Fui pro mercado de trabalho. Na empresa que trabalhei todos me elogiavam muito. Tanto os que residiam no Brasil quanto os que estavam na Asia ou espalhados pela América Latina. Me achavam esperto, inteligente e etc. E eu, honestamente, não entendia isso. Na verdade, não tava nem acostumado com essa ideia — e até hoje não tô acostumado. É difícil se acostumar com algo depois de ter passado 15 anos da minha vida acreditando no oposto.

Hoje se você olhar meu currículo ele é melhor que todos esses amigos. Mas, novamente, quem foi que disse que currículo é a melhor métrica pra medir inteligência? Não é e jamais vai ser. Acontece que, pra eles, é uma métrica pra medir até hoje. E chega até ser engraçado fazer essa comparação.

Quando reencontrei esses amigos no decorrer desses últimos anos sempre me sentia diferente. E isso era bom. Meu ego era controlado dessa forma. Porque se sentir inteligente toda a hora é tão ruim quanto se sentir burro toda a hora. E até hoje gosto de reencontrá-los. Não só pelo saudosismo, mas porque sempre aprendo coisas diferentes e interessantes.

Intrigado com o assunto resolvi pesquisar e descobri que Howard Gardner fez uma pesquisa em 1983 sobre múltiplas inteligências. Fiquei muito feliz ao ver isso. Finalmente eu havia encontrado indícios científicos de que meus amigos estavam avaliando a inteligência de forma errada.

E, refletindo, entendi que é perfeitamente normal as pessoas medirem inteligência como os meus amigos. Afinal as escolas fazem isso desde cedo, sempre colocando certos tipos de inteligência em um pedestal e ignorando outros tipos. Se você não é bom em matemática ou em alguma língua, você pode ainda ser dotado em outras coisas, mas isso não era chamado de inteligência. Por quê?

9 tipos de inteligência de acordo com Howard Gardner

  • Lógico-matemática

Quantificar coisas, criar hipóteses e testar elas. Essa inteligência nos permite ter um raciocínio sequencial e padrões de pensamento indutivo e dedutivo. Ela é geralmente bem desenvolvida em matemáticos, cientistas e detetives.

  • Linguística

Habilidade de encontrar as palavras certas para se expressar. Essa inteligência é mais evidente em poetas, romancistas, jornalistas e oradores.

  • Musical

Discernindo sons, tonalidades, timbres e ritmos. Compositores, maestros, músicos, vocalista e ouvintes sensíveis possuem um grau superior desse tipo de inteligência. Curiosamente, de acordo com Howard Gardner, muitas vezes existe uma ligação afetiva entre a música e as emoções; e inteligências matemáticas e musicais podem compartilhar processos de pensamento comuns.

  • Espacial

Habilidade de pensar em 3 dimensões. Capacidades básicas incluem fazer imagens mentalmente, raciocínio espacial, manipulação de imagem, habilidades gráficas e artísticas e uma imaginação ativa. Marinheiros, pilotos, escultores, pintores e arquitetos possuem um grau superior desse tipo de inteligência.

  • Corporal cinestésica

Habilidade de coordenar a mente com o seu corpo. Essa inteligência envolve um senso de timing e a perfeição das habilidades através da união entre mente e corpo. Atletas, dançarinos, cirurgiões e artesãos costumam possuir uma inteligência cinestésica corporal superior.

  • Intrapessoal

Entendendo você mesmo, o que você sente, e o que você quer. Mas ela não é apenas para a valorização de você mesmo, mas também da condição humana. É bastante evidente em psicólogos, líderes espirituais, filósofos e qualquer pessoa com alto grau de empatia.

  • Interpessoal

É a habilidade de sentir sentimentos e motivações das pessoas. Mas também trata-se de saber ter uma comunicação verbal e não verbal eficaz junto com a capacidade de entender múltiplas perspectivas. Professores, assistentes sociais, atores e políticos costumam ter uma boa inteligência interpessoal.

  • Naturalista

Compreender as coisas vivas e entender a natureza. Essa capacidade foi claramente muito importante no passado para caçadores e agricultores. Mas ela continua sendo essencial para pessoas que exercem alguns papéis que possuem contato direto com a natureza.

  • Existencial

É a sensibilidade e a capacidade de abordar questões profundas sobre a existência humana, tais como o sentido da vida, por que morremos, e como chegamos aqui.

“O mundo está cheio de gênios que se acham idiotas porque vão mal naquilo os obrigam a ser bons”

O que outros cientistas pensaram que eram apenas soft-skills, como habilidades interpessoais, Gardner percebeu que eram tipos de inteligência. Assim como ser um gênio da matemática lhe dá a capacidade de compreender o mundo, compreender melhor as pessoas lhe dá a capacidade de ver o mundo a partir de uma perspectiva diferente. Não saber matemática vai ser um problema se você quiser usar o teorema de Pitágoras pra calcular alguma coisa, mas é provável que você tenha as habilidades certas para encontrar alguém que possa calcular pra você ou lhe ensinar.

Depois de ver como eu me saí no mercado e trabalho, na área acadêmica e de pegar feedbacks de pessoas que não são tão enviesadas pelo paradigma de medir a inteligência através de lógica matemática. Cheguei na conclusão que não sou tão burro assim. E eu realmente espero que esse texto sirva para pessoas que passaram por situações parecidas e para aqueles que costumam medir de forma errada a inteligência do próximo.
Se mesmo assim você continuar chamando seus amigos de burros porque eles não lembram qual é a fórmula de Pitágoras, talvez seja a hora de você rever seus conceitos e tentar ser menos preconceituoso. Inclusive talvez seja um indicio de que você precise melhorar a sua inteligência existencial.

Importante

Apesar de tudo isso, esse artigo e o estudo feito pelo Gardner não são motivos para que você seja um completo idiota em determinados assuntos. É importante saber escrever bem, falar bem, ter empatia pelos outros, saber calcular… Todas as inteligências acima são importantes. Idealmente você precisaria ser bom em quase todas elas e excelente em uma ou duas. Talvez ruim em uma ou duas.

Essa pesquisa, bem como esse artigo, não é um artificio pra ser usado como desculpa esfarrapada “não sei somar porque meu negócio é música. Não sei ler porque meu negócio é desenhar”. Beethoven era musicalmente um gênio, mas terrível em aritmética. Einstein, que foi, provavelmente, o maior cientista de todos os tempos, não era bom com suas emoções. Mas eles são exceções e não devem ser utilizados como bons exemplos. Você, como ser humano, deve procurar se especializar em algumas habilidades e ter o mínimo de sabedoria nas outras enquanto sempre tenta ser alguém melhor todos os dias.

Referências

Livro: Frames of Mind: The Theory of Multiple IntelligencesPost atualizado pelo Howard Gardner sobre os tipos de inteligências (originalmente eram 7 e ele atualizou pra 9).

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