Não importa o quanto você saiba sobre Startups, você com certeza já ouviu falar sobre MVP — Minimum Viable Product (Produto Mínimo Viável). Se você ainda não ouviu falar, não se preocupe. Você está no lugar certo e esse guia vai lhe ajudar.

Apesar do MVP ser uma técnica muito poderosa para Startups, ele pode ser um fardo quando não é pensado corretamente. Eu mesmo já cometi vários equívocos com MVP por não ter me aprofundado no conceito e somente depois de anos tomando tapa na cara pude entender o termo. Pensando nisso resolvi criar um guia para explicar corretamente o que é um MVP. Espero que isso ajude outras pessoas a não cometerem erros tão comuns.

PS:Qualquer um pode errar na hora de criar um MVP, tanto um empreendedor de sucesso quanto um amador. Então não se sinta mal se você errar uma, duas, três ou dez vezes. Pare de mimimi, abrace seu erro e tente novamente!

Definição: O que é um MVP

O Produto Mínimo Viável é a versão de um produto que permite que a equipe possa coletar — com o mínimo de esforço — o máximo de informações sobre os seus clientes enquanto eles usam um produto ou uma ferramenta. A versão final do produto em si é apenas criada depois do MVP, onde são coletados inúmeros feedbacks dos usuários iniciais. Por causa disso muitas Startups acabam pivotando a ideia inicial sem muitos esforços.

Um produto mínimo viável (MVP) ajuda empreendedores a iniciar o mais rápido possível o processo de aprendizagem. No entanto, ele não é necessariamente o menor produto imaginável, apesar de ser a maneira mais rápida de entrar no ciclo de Criar-Mensurar-Aprender com o mínimo de esforço possível — Livro Startup Enxuta do Eric Ries

Antes de qualquer coisa

MVP, apesar do nome, não significa necessariamente a criação de um “produto mínimo” ou protótipo. Por exemplo, se o seu objetivo é simplesmente diminuir as filas em restaurantes, você realmente não precisa criar um software para tal. Pelo menos não inicialmente.

Imagine que você queria validar a hipótese de um aplicativo para reduzir filas. Para simular esse serviço, você pode ficar na fila para as pessoas e avisar por mensagem de texto quando estiver chegando a vez delas. Isso é basicamente executar a mesma função de um aplicativo só que com muito menos esforço. Na realidade, quanto menos tempo e dinheiro você gastar, melhor!

Em outras palavras, ser criativo e ir para rua simular o papel do seu software é algo crucial. Essa já é uma forma de MVP e assim você pode receber feedbacks e ver se as pessoas estão interessadas no seu produto ou serviço. A grande vantagem é que você não vai precisar gastar horas desenvolvendo um software.

Mas atenção! Se você levar a palavra MVP ao pé da letra, você vai acabar colocando uma sobrecarga extra em todo o seu trabalho. Por isso é muito importante conseguir fazer as primeiras iterações do serviço com o cliente sem um software.Isso garante que você não gaste muita energia em métricas, análises e em desenvolvimento repetitivo de software. Afinal, em muitos casos você vai ter que refazer seu software ao receber feedback dos clientes. Não que a análise de métricas não seja importante. Pelo contrário, mas é que no primeiro momento ela não deve ser uma prioridade.

Elimine todo recurso, processo ou esforço que não contribui diretamente com a aprendizagem que você procura — Livro Startup Enxuta do Eric Ries

Tipos de MVP

Abaixo eu coloquei vários tipos de MVP. Entenda cada um e veja qual é o mais adequado para a sua ideia. Mas fique à vontade para bolar o seu próprio, e se fizer, compartilhe nos comentários!

Vídeo explicativo

Crie um vídeo explicativo sobre a sua Startup e veja a reação das pessoas. Coloque um botão para se inscrever antes mesmo do produto ficar pronto. Dependendo de como for a recepção das pessoas você vai saber que caminho seguir.

Você pode inclusive ir mais longe, ao fazer o vídeo explicativo faça as pessoas apenas se inscreverem e cobre elas! Uma espécie de pré-venda. Se você começar a receber muitas compras você já validou seu produto antes mesmo de construir um, assim fica muito mais fácil saber que caminho seguir baseado nesse feedback.

Caso de sucesso de vídeo explicativo: Dropbox

Por volta de 2009 o Dropbox fez um pequeno vídeo explicando o serviço e porque as pessoas deviam usá-lo. Muitas vezes um vídeo simples de 90 segundos é o suficiente. Nessa campanha com um esforço muito pequeno o Dropbox se deu muito bem. Veja o vídeo abaixo.

Como muitos de vocês já sabem, o Dropbox é uma empresa que continua crescendo e vale bilhões. Mas o que realmente interessa agora é: Como é que eles começaram?

Eles começaram com o vídeo acima, sendo o suficiente para dar aos usuários uma noção do que seria o produto. Serviu para eles coletarem feedbacks de várias pessoas antes mesmo de perder tempo colocando o produto nas mãos das mesmas. O vídeo fez a lista de e-mail deles disparar de 5.000 para 75.000 em um dia. O vídeo foi tão bem recebido pelas pessoas que durante muitos anos a única coisa que tinha na página principal do Dropbox era o vídeo explicando o que era o serviço e uns botões de se cadastrar e fazer login.

Landing Page com poderes especiais de mensuração

Uma landing page é uma página que apresenta um serviço ou produto enquanto geralmente pede para os usuários se cadastrarem ou pagarem antes do produto estar pronto. Mas não pense que apenas criar uma landing page é criar um MVP. Por isso fiz questão de colocar com poderes especiais de mensuração.

A landing page pode servir para validar a sua proposta de valor, a solução do produto, a argumentação de vendas e pode até mesmo validar o seu preço. Se você quer validar de uma boa maneira o seu MVP através de uma landing page basta que você siga os seguintes passos:

Apesar dos negócios com Aplicativo do Dia não terem ido muito bem, nós fizemos um ótimo trabalho na nossa landing page (pra época foi bom. Hoje eu acho que não seria tão eficiente) e deu pra conseguir vários usuários antes mesmo do lançamento.

Os passos

  1. Crie a sua landing page
  2. Crie uma campanha no Google Adwords que leve para a sua landing page. Você pode criar várias mensagens diferentes e ver qual atrai mais usuários para a sua página, dessa forma você pode compreender melhor o seu público alvo.
  3. Configure o Google Analytics na sua página. É muito importante você conseguir mensurar as suas conversões, saber quanto tempo o usuário passou na sua página, onde ele clicou e etc. Ao ver quanto tempo os usuários passam na sua página da pra ter uma noção se ele está ou não consumindo o conteúdo.
  4. Use um fórum, chat, um FAQ ou qualquer coisa parecida para que as pessoas possam ter um canal de comunicação direto com você.

Crie um questionário para os usuários e tente compreender quem são eles.

O Mágico de OZ (Fake it til you make it)

Essa é um tabu! Muita gente tem medo de fazer, mas em muitos casos é a forma mais segura de fazer o seu MVP e validar a sua ideia.

O “Mágico de Oz” é quando você coloca na frente algo que se parece com um produto real, mas na realidade você vai realizar manualmente todas as funções do produto. É também conhecido como “Flinstoning”. O exemplo que dei anteriormente do aplicativo de filas é um tipo de MVP Mágico de Oz. Mas eu gostaria de dar um exemplo ainda melhor.

No livro Startup Enxuta (Lean Startup), Eric Ries fala sobre a maior loja de sapatos online. Vou usar esse mesmo exemplo pra ilustrar um MVP Mágico de Oz.

Nick Swinmurn, fundador da Zappos, não começou o seu negócio estocando grandes quantidades de sapatos e investindo em um backend robusto de e-commerce. Pelo contrário, ele foi nas sapatarias próximas da sua região e pediu a permissão dos proprietários para tirar fotos de sapatos e colocá-los online. Uma vez que as encomendas começassem a ser feitas ela ia na loja e comprava o par de sapato que havia sido encomendado. Bem simples, não é?

Em outras palavras, ele fazia manualmente todas as funções do serviço. Postava os sapatos, checava as encomendas, comprava os sapatos, enviava, recebia os pagamentos… tudo mesmo.

Obviamente isso não era um negócio escalável. Mas esse não era o foco naquele momento. Através desse experimento Nick pôde validar a hipótese “Já existe demanda suficiente para uma experiência de compras on-line para sapatos?” Ao validar a ideia ele fez o investimento necessário.

Curioso por que o nome desse MVP é Mágico de Oz? Veja esse vídeo e entenda.

Ao invés de fornecer um produto, você faz todo o serviço manual. A diferença é que não é qualquer serviço! O serviço deve possuir exatamente os mesmos passos que as pessoas iriam passar para ter o seu produto/serviço.

Novamente usando o livro Startup Enxuta (Lean Startup) como referência, existe um produto chamado “Food on the table” e ele fornece listas de receitas semanais baseadas na base de produtos do seu supermercado favorito.

Agora imagine o que eles precisam pra fazer isso. Precisam ter acesso a vários supermercados, precisam atualizar semanalmente o estoque de cada uma, ver o que mais vende e ainda precisam ter algoritmos que combinam as comidas que você mais gosta de acordo com as promoções e qualidade dos produtos disponíveis no seu supermercado favorito.

Putz, que complexo! E agora? O que você faria?

Claro que os criadores da ideia não implementaram tudo de uma vez. Antes de construir qualquer coisa, os dois fundadores foram em um supermercado na sua cidade local. Eles entrevistaram os compradores até encontrarem alguém interessado no serviço.

O CEO da Startup visitou esse cliente uma vez por semana. E em todas as vezes ele levava uma lista de compras e receitas selecionadas, cuidadosamente escolhidos com base nas preferências do cliente e nas promoções do supermercado. A lista era atualizada de acordo com os desejos e feedback do cliente. Mas acima de tudo, o mais importante era que o CEO iria receber $10 pra fazer esse serviço.

Apesar de ser importante para o negócio, ele jamais iria ficar rico dessa forma. Ir pessoalmente na casa de todas as pessoas não permite que o negócio seja escalável.

Mas a cada semana eles iriam aprendendo mais sobre o que é preciso para tornar seu produto um sucesso. Eles continuaram adicionando mais clientes para suas visitas semanais até chegar num ponto que eles estavam sobrecarregados.

Apenas quando chegaram nesse ponto eles começaram a fazer a implementação do sistema. Em uma semana eles começam a enviar listas e receitas via e-mail. Na semana seguinte eles escreveram uma software para analisar as promoções no supermercado. E, eventualmente, eles começaram receber os pagamentos online.

Moral da história, somente após a validação básica do produto que eles começaram a codificar o sistema para serem escaláveis e eventualmente se transformar em um negócio presente em todo o país.

MVP de Simulação

Esta estratégia é uma mistura entre os MVPs “Mágico de Oz” e “Concierge“. Novamente você vai simular os passos das pessoas que iriam utilizar o seu produto. Mas ao invés de simular as funcionalidades, você simula elas usando ferramentas que já existem.

BJ Fogg, um professor de Stanford, fez um excelente trabalho ao criar um MVP de simulação. Ele havia descoberto uma maneira muito simples de ajudar qualquer pessoa a criar um novo hábito. Para isso era preciso escolher 3 hábitos e continuar com eles por pelo menos uma semana.

É tão simples que o professor levou alguns minutos para criar seu Produto Mínimo Viável.

  1. Registro através do Google Docs
  2. As instruções foram escritas em um documento do Google Docs que eventualmente era editado pelo professor mesmo se alguém estivesse lendo
  3. Um e-mail era enviado manualmente todos os dias para quem se cadastrou.
  4. Você tinha que responder escrevendo “y”, se você realizou o seu hábito e outro “y” se você quisesse continuar no dia seguinte.
  5. Em seguida você recebia uma resposta como incentivo.
Arrecade fundos diretamente dos seus clientes (Crowdfunding)
  • Este é um caso parecido com o “venda antes de construir”. A idéia básica é simples: lançar uma campanha de crowdfunding em plataformas como o Catarse, Kickstarter e IndieGoGo. Não só você vai validar se os clientes querem comprar seu produto, mas você também vai arrecadar o dinheiro.
  • E os benefícios não param por aí. O que você ganha em uma campanha de crowdfunding bem sucedido é uma tribo de early adopters e fãs delirantes. Esses são os tipos de usuários que você quer manter contato constante pois eles são mais propensos a divulgar o seu produto e contribuir para o seu negócio

No início muitas das nossas hipóteses são simplesmente erradas e é importante você descobrir isso o mais rápido possível. Portanto, os primeiros MVPs devem ser feitos o mais rápido possível.

Não desperdice seu dinheiro em um produto que ninguém vai querer usar. Eu já cometi várias vezes esse erro, e acredite, é fácil cair nessa armadilha. Seja criativo e pense bastante em uma maneira de validar o seu produto com o menor esforço possível. Você pode começar fazendo uma das seguintes coisas:

  • Selecione o tipo de MVP que mais combina você. Ou até mesmo uma mistura deles.
  • Crie um plano simples e que seja fácil de executar — lembre-se da palavra mínimo.
  • “Não sei qual tipo de MVP escolher, e agora?”
  • Isso vai depender muito do seu propósito, você quer ver se uma ideia tem apelo para as pessoas? Você quer validar o preço de um negócio para saber se ele é viável?

Você precisa pensar muito bem para ir eliminando todas as suas duvidas e hipóteses erradas enquanto aprende sobre o seu negócio. Dessa maneira você vai reduzir as suas chances de fracassar e após vários experimentos você estará preparado para entrar no mercado sem sem preocupar com a aquisição do seu produto.

*Originalmente publicado por mim no dia 1 de novembro de 2014.

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